sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Já não posso mais cantar "meus vinte poucos anos"



É duro, mas é verdade... ultrapassei a barreira dos 25 e completei, no dia 17, exatos 26 aninhos. Agora não tão mais exatos, dada a demora em postar algo a respeito (aliás a demora em postar, ponto).

Não foi falta de vontade, nem de assunto. Mas sim um emaranhado encadeado de coisas - se é que isso é possível...

Sobre o aniversário, teve festa-quase-surpresa, com direito a bolo, docinho, pãozinho etc; carreata vinda da Bahia-iá-iá só para me fazer feliz - e como fizeram... - telefonemas perdidos e outros achados; abraço, choro, beijo e praia.

Ah e quero comunicar que, a partir de agora, o femme será ilustrado, em geral, com as fotos tiradas na minha protelada e aguardada câmera fotográfica.

A foto, que inaugura essa nova etapa, chama-se "kit-tieta com canga psicodélica ao fundo" (que ninguém leve a sério isso...).

Essa sacola "ebololada" foi meu presente de aniversário dos Piratas. Dentro uma lembrancinha pitoresca de cada um dos piratas-fixos, ou seja, amigos que fiz quando fiquei no "Albergue Piratas da Praia", minha primeira casa recifense.

O nome, claro, vem da minha alcunha em terras pernambucanas...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aleph, Borges e as gentilezas


Trecho do Aleph de Borges, que recebi hoje por email. Uma gentileza, um "muito obrigado" por um livro de Ítalo Calvino que lhe deixei de presente, que por sua vez era uma outra gentileza, um outro "muito obrigada" por um favor feito, um galho quebrado...

E assim, a vida cheia de gentilezas se torna muito mais bela, fraternal e humana. Que cada sorriso, encontro, palavra trocada seja motivo para se endereçar um poema, enviar um cartão postal, cantarolar uma música, enviar um link de um livro interessante.

Povoemos o "inconcebível universo" com o belo e o terno.


"Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera tornassolada, de quase intolerável fulgor. Ao princípio pensei que fosse giratória; logo compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava aí, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos escrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Frey Bentos, vi ramos, neve, tabaco, gretas de metal, vapor d'água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer de mama, vi um círculo de terra seca em uma calçada, onde antes houve uma árvore, vi uma chácara de Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemont Holland, vi a um só tempo cada letra de cada página (quando criança eu costumava maravilhar-me de que as letras de um volume fechado não se misturassem e perdessem no decurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-do-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam sem fim, vi cavalos de crina como um remoinho, em uma praia do Mar Cáspio na aurora, vi a delicada ossatura de uma mano, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de umas samambaias no solo de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marejadas e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu próprio sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi minha cara e minhas vísceras, vi a sua cara, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo."

OBS: Imagem de Anne Julie

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Queimaram a Chapada!!


Ainda não consigo acreditar no que estou lendo, 70 mil hectares queimados!!!! Metade do Parque da Chapada Diamantina consumida pelo fogo!! MAS COMO DEIXARAM IR TÃO LONGE?!?!?! Como foi possível??
Indignada, triste, revoltada. Um crime pelo qual, já sabemos, ninguém pagará. Aliás, todos nós pagaremos pelos culpados.


A matéria na Folha Online

11/11/2008 - 08h51
Fogo destrói quase metade de chapada na BA
LUIZ FRANCISCO da Agência Folha, em Salvador
Focos de incêndio simultâneos destruíram cerca de 70 mil hectares do Parque Nacional da Chapada Diamantina, o equivalente a quase 50% da área da região (150 mil hectares), um dos maiores pólos turísticos da Bahia. A situação é tão crítica que o Corpo de Bombeiros e os gestores do parque pediram que os turistas evitem a região até que chova ou que os focos sejam controlados.
"A situação está fora de controle. Se não houver o reflorestamento, os danos ambientais serão irreversíveis", disse Christian Berlink, administrador do parque.
O incêndio tem origem criminosa --e o forte calor ajuda a propagar as chamas. Segundo bombeiros e voluntários que atuam no combate aos focos, agricultores e garimpeiros costumam provocar incêndios ao preparar a terra para plantações e escavações.
Levantamento parcial do Corpo de Bombeiros da Chapada revela que os primeiros focos surgiram há quase um mês, em 20 municípios que integram o parque ou seu entorno.
Nos últimos dias, porém, a ação do fogo foi mais intensa e esteve concentrada em 11 cidades, queimando casas, material de irrigação, cercas e animais.
"Existe um comprometimento geral do ecossistema da região. Já há animais mortos e outros certamente devem morrer de fome ou de sede", disse Cezar Gonçalves, analista do Instituto Chico Mendes.
De acordo com ele, o parque abriga 370 espécies de aves. "Como esta é uma época de reprodução, certamente dezenas de aves deixaram de nascer porque o fogo destruiu os ninhos, que geralmente estão localizados nas copas das árvores. Além disso, nossos técnicos constataram mortes de répteis e de mamíferos."
Desses 11 municípios, em cinco --Palmeiras, Lençóis, Andaraí, Mucugê e Ibicoara-- a situação é de calamidade pública, segundo Gonçalves.
O combate às chamas está sendo feito por 192 pessoas -150 bombeiros e voluntários e 42 moradores contratados, pois conhecem bem o parque. O efetivo conta ainda com quatro aviões pequenos, dois helicópteros e um Hércules da FAB (Força Aérea Brasileira).



E na A Tarde online (retirei as fotos de lá também)
11/11/2008 às 09:28 ATUALIZADA às 10:10
Fogo destrói metade do parque da Chapada Diamantina
Agencia Estado
Cerca de 70 mil hectares do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, já foram atingidos pelo fogo na região, segundo informações do superintendente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Célio Pinto. A área queimada corresponde a metade da área da reserva. Cerca de 300 pessoas - 150 voluntários, 42 brigadistas do Ibama, além de bombeiros -, trabalham para tentar controlar os focos de incêndio. Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), helicópteros da Polícia Militar (PM) e aviões contratados pelo governo baiano auxiliam no combate às chamas, segundo Célio.Além do parque, diversos municípios também foram atingidos pelos incêndios, comuns nesta época do ano por causa do calor na região da Chapada. "Desta vez, a situação está preocupante por causa das condições climáticas", afirmou o superintendente. "Além do tempo, a Polícia Militar investiga os incêndios criminosos na região", disse.Os focos de incêndio começaram a destruir a vegetação característica da Mata Atlântica do parque, na região do Rio de Contas, no mês passado. O incêndio chegou a ser controlado no final do mês, mas outros focos foram registrados, segundo o superintendente. Hoje, a Coordenação Estadual de Defesa Civil (Cordec) deve se reunir com representantes do governo, da secretaria do Meio Ambiente, do Ibama e dos bombeiros para fazer um balanço das operações e discutir estratégias para o combate às chamas.



A foto aqui de baixo é de Seabra, a maior cidade da região, simplesmente rodeada pelo fogo.












sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Tom Zé ---- Estudando a Bossa Nova (2008)


Mel deusss! Que disco é esse?!?!?!?!?!

Como se não bastasse Tom Zé ser gênio, revolucionário-musical, bem-humorado, perpicaz, enfim..., ele ainda reuniu um timaço de cantoras para acompanhá-lo nesse álbum. Mônica Salmasso, Jussara Silveira, Zélia Ducan (me surpreendeu), Fernanda Takai, Marina De La Riva - suas vozes delicadas junto com a voz de "taquara rachada", hehe, de Tom Zé formam um casamento impensável, mas pra lá de exultante.

Sempre considerei "Jogos de armar" uma experiência divertida, mas "Estudando a bossa", sem perder o escracho, as rimas e construções inusitadas, é, deliciosamente, melódico --- acarinha o ouvido...

Quer ouvir, corre no Um que tenha (corre mesmo porque o site está perigando de ser tirado do ar igual ao Som Barato, para tristeza e indignação geral da nação que aprecia música da booooa...)


Bom também ir aqui e no site do dito cujo.


Ah, dá uma olhada na reportagem da Folha Online

05/11/2008 - 09h36

Tom Zé se rende à bossa nova em novo disco

AUDREY FURLANETO da Folha de S.Paulo

Tom Zé vem tendo "pesadelos sensacionais". Gravou o que considera seu primeiro disco de músicas "cantáveis", chamado "Estudando a Bossa - Nordeste Plaza". "Eu inauguro um novo espaço na minha vida, onde faço pela primeira vez músicas melódicas, cantáveis", diz. "As transformações são assim. Todos os pesadelos meus têm uma mortandade enorme. Eu mato milhões de pessoas e estou o tempo todo ameaçado de morrer", conta, rindo. Por outro lado, com "Estudando", diz que vive uma das fases mais felizes de sua vida ao descobrir que suas músicas, agora, são "fáceis de se amar".

"Estudando a Bossa", que sai pela Biscoito Fino, tem menos ruídos e mais melodias suaves, como em "Barquinho Herói", "Filho do Pato" e "Roquenrol Bim-Bom", com delicadas vozes femininas de Fernanda Takai, Andréia Dias, Jussara Silveira e Anelis Assumpção, entre outras cantoras.

O resultado são faixas distantes do Tom Zé que diz ter feito música "crua e bárbara" enquanto os "bossa novistas finíssimos" Caetano Veloso e Gilberto Gil, nos anos 60, investiam em sons muito "depurados, muito perto da compreensão do que [Tom] Jobim, João [Gilberto] e [Carlos] Lyra estavam fazendo". "Esses são verdadeiros homens finos", diz.

"Tentei fazer essa coisa [em "Estudando a Bossa"] já que meu próprio espírito, graças ao tipo de leitura que tenho feito, graças ao tai chi [chuan] que pratico, graças à mulher com quem sou casado, que é uma mulher culta [Neusa Martins], passou por uma transformação até ser capaz de criar um disco de bossa nova." Segundo o músico, sua relação com os "homens finos" foi de "fã à distância cósmica e, por isso, apaixonado". "Não sou do cacife desses grandes artistas."


Nave extraterrestre A idéia de "Estudando a Bossa" aproveita a efeméride dos 50 anos da bossa nova e, se tem algo em comum com "Estudando o Samba" (1976) e "Estudando o Pagode" (2005), o músico diz que é apenas o fato de se debruçar sobre um gênero que, neste caso, ele viu nascer. "

Na rádio Excelsior da Bahia, em agosto de 58, de repente tocou uma coisa que era imensamente absurda, uma nave extraterrestre pousando em nossos ouvidos e, ao mesmo tempo, estava entranhada em toda a história do samba que a gente conhecia", lembra o músico. A partir daquele dia, avalia Tom Zé, os músicos de sua geração tiveram de "exacerbar sua capacidade perceptiva, para poder conviver com a chegada no planeta Terra da gravação de "Chega de Saudade'". Dias depois de ouvir a canção inaugural da bossa, ele soube que seu compositor era baiano ("outro susto cósmico!"), chamava-se João Gilberto e que estava na Bahia um moço que sabia fazer sua "levada" com o violão. "Eu cheguei à casa dele e já tinha cinco ou seis amigos para aprender a levada do violão de João", conta. O momento seguinte à chegada daquela nave, ele resume como "uma febre de neurônios, ansiedade e paixão" --ou, como diz na letra de "João nos Tribunais", "diante do desafinado, o mundo curva-se, desova".

"O amor puro mandou dizer, por email, desça do muro, que eu já tô cheio, já cansei de você, desse lero-lero, dessa velha letra de bolero...

e só aturo agora o velhaco do Platão com o tal Kama-sutra na mão."
(Tom Zé e Marina De La Riva em "Bolero de Platão).

"Quando Caymmi que criou essa cidade Solvador, foi a Mãe Menininha que amamentou...

"Bahia que padece de usura, meu Deus, e quer fazer torre de toda altura, rebenta praia, quebra Cairu, ninguém escapa desse cerca Jacú. Buda* que ensaia de pijama na Lapinha, Gandhi gandaia que desmama Barroquinha, Patuquicaio* uma mucama na Rocinha, mãe menininha samba reza na Bahia-iá-iá”
(Tom Zé, Annelis Assumpção, Daniel Maia em “Solvador, Bahia de Caymmi”)

*Não consegui entender direito essas duas palavras... chutei hehe

“O Rio era lindo demais e amava Niterói, que também dava sinais, doce paixão que dói, e desconsolados olhares, toda noite em vão

piscando sobre os mares numa eterna separação"
(Tom Zé e Zélia Ducan em "Amor do Rio")